Nietzsche, a Selvagenzinha e a Alguém

A menina e o lobo solitário

Nietzsche, a Selvagenzinha e a Alguém
by Miriam Waltrick

Tinha 7 anos de idade quando ouviu, pela primeira vez, a sentença da tia: “ela é uma selvagenzinha”. O motivo? Não conseguia se comportar como as primas, como princesinhas. E tudo era sempre motivo de comparações! – elas, as meninas comportadas, sempre com laçarotes na cabeça e vestidinhos lindos; ela, a selvagenzinha, sempre de shorts, detestava bonecas, gostava de rolar na grama, mexer na terra, transformar em lobos os vira-latas da casa e apostar corrida de bicicleta com os amigos. De fato, merecia o título. Não só merecia, como fez juz a ele. E as primas, as de laçarotes na cabeça, toda vez que vinham visitá-la, eram “desvirtuadas” pela selvagenzinha. Porém, jamais sofrera repreensão dos pais por comportar-se dessa forma; deixaram-na crescer livre.

Achando extremamente tedioso “brincar de casinha”, a selvagenzinha fazia as primas correrem com lobos vira-latas, a confundirem-se com eles, a andarem descalças, se sujar, brincar de pega-pega, esconde-esconde… Uma lástima! E as princesas? Adoravam os momentos em que podiam se libertar dos laçarotes, dos vestidinhos bonitinhos, das sufocantes ataduras, das correntes que as mantinham imóveis; estavam sempre contando os dias para se verem – as princesas e a selvagenzinha.

O tempo passou. A selvagenzinha cresceu e, logo percebeu, teria de se adequar as normas que a sociedade impunha, como condição sine qua non para a boa convivência com os outros. Passou, então, a fingir ser uma pessoa “normal”, uma “alguém”, a seguir protocolos, a ter modos e graça, a comportar-se de maneira a ser levada a sério. Adequou-se à sociedade; comprimiu-se na máquina; virou um “alguém” que se via na obrigação de rejeitar a selvagenzinha e tinha de calar sua voz a qualquer custo.

Só que a selvagenzinha insistia em viver, falar e resmungar. Travou-se, então, um combate feroz entre a “alguém” e a selvagenzinha. Digladiavam-se noite e dia. É que a selvagenzinha tinha um defeito – sempre adorou ler livros e os lia desde os 5 anos. E foi com eles que aprendeu sobre as diferenças, a intolerância, o que era considerado “certo” e “errado” mas, sobretudo, aprendeu que existem vários, diversos, milhares de pontos de vista diferentes dos dela. E que nem sempre, aqueles que dizem querer o bem de “alguém”, realmente o desejam. Essas constatações a chocaram em um primeiro momento – percebeu como era estranho, complexo o mundo em que vivia.

A sociedade, com todas as suas regras e normas de conduta, por exemplo, visa o “bem-comum”. E em nome dele [do tal bem-comum], o bem-individual teria de ser sacrificado. Com grande apreensão, também deu-se conta de que nem tudo que seria bom para todos, seria bom para ela. Como resolver isso? Como conseguir enxergar os rostos que se escondiam atrás de máscaras e representações? Ela ainda não sabia. Por pressão, porém, viu-se obrigada a assinar o contrato. E foi neste mesmo dia que a “alguém” saiu-se vitoriosa. Finalmente, conseguira enjaular a selvagenzinha… ou, pelo menos, achara que sim.

Mais crescida, já cursando História na faculdade, a “alguém” deparou-se com um grande pensador, chamado Nietzsche. E neste dia, que foi um dos mais felizes de sua vida, ela deu-se conta de que, finalmente, havia encontrado alguém que pensava parecido com ela [ou teria sido com aquela perigosa selvagenzinha?]. Foi amor a primeira vista. Ela queria tê-lo pedido em casamento. Porém, sabia da impossibilidade, devido ao seu falecimento, muitos anos antes do nascimento dela própria. Então, a “alguém” chorou. Chorou muito. Nunca, ninguém, jamais teria a chance de compreendê-la tão bem quanto ele. E ela sentiu-se só. Muito só.

Outros tantos anos se passaram. Durante este tempo, ela deixara o “amor de sua vida” meio de lado, de castigo, que era pra não ficar sofrendo as dores de uma paixão impossível, irrealizável. Na verdade, fez ainda pior – ela o renegou, desdenhou e passou a afrontá-lo com deuses e demônios das mais diversas espécies, cores, tonalidades e origens. É que ela tinha consciência de que se o “ex-amigo” a pudesse ver, sentiria-se magoado, afrontado. “Ora! Não fora ele um dia a me magoar e me afrontar por estar morto?” – a “alguém” repetia para si, na tentativa de justificar o injustificável. A estas alturas, já nem sabia porque se apaixonara por ele – “aquele alemão tonto e ruim das ideias!”. Mas o tempo -ah! o tempo – e todas as situações pelas quais teria de passar sozinha, em silêncio, um dia, a faria se reaproximar do renegado, do bigodudo, do alemão tonto e ruim das ideias.

Batalhas e mais batalhas inglórias depois, finalmente entendeu o que a levara a ele e o que não compreendera naquele precoce contato. Acima de tudo, deu-se conta de que muito do que vivera, até aquele exato momento, não passara de uma [perigosa] farsa. Teve de admitir que a verdadeira responsável, aquela que facilitara o encontro “gêmeo”, havia sido a selvagenzinha – aquela que rolava na grama, que desvirtuava meninas com laçarotes na cabeça, que corria com lobos vira-latas, que não aceitava ser domada, dirigida ou liderada – e, injustamente, fôra encarcerada nas masmorras, de um inconsciente caóticamente organizado, sem ter tido, ao menos, chance de defesa; deu-se conta de ter sido ela [a selvagenzinha] a dar as mãos ao bigodudo e a dizer, numa voz infantil – “ensina-me a aprender….”.

A “alguém”, então, entendeu que poderia tê-lo sempre junto a ela. O seu amor, recém-(re)descoberto pelo “amigo”, fê-la, sobretudo, entender que não precisava livrar-se daquela insolente selvagenzinha que, do porão a que fora relegada, clamava por atenção; percebeu que poderia sublimá-la, (re)direcioná-la, torná-la uma artista que se expressaria através das letras. E a selvagenzinha sorriu, sorriu feliz, diante da oportunidade concedida de (res)surgir das cinzas, a que “alguém” a havia reduzido, e a voltar a correr com lobos.

English: Portrait of Friedrich Nietzsche, 1882...

English: Portrait of Friedrich Nietzsche, 1882; One of five photographies by photographer Gustav Schultze, Naumburg, taken early September 1882. Public domain due to age of photography. Scan processed by Anton (2005) Deutsch: Portät Friedrich Nietzsches, 1882; Das zugrunde liegende Original stammt aus einer Serie von 5 Profilfotographien des Naumburger Fotographen Gustav-Adolf Schultze, Anfang September 1882. (Photo credit: Wikipedia)

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